| António
Revez: Transmite
Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa, trabalhando
com as suas estações de onda média e curta, de Lisboa
e Porto. Apresentamos agora Orquestras Ligeiras. Em primeiro lugar a orquestra
de Helmut Zacharias, na composição China boogie.
Disco-China Boogie
(interrompido, bruscamente, a pouco mais de meio)
António
Revez: Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de Orquestras
Ligeiras para transmitirmos uma notícia especial da Agência
Internacional Press. Às 19 horas e 45, o Dr. Jorge da Fonseca
do Observatório Meteorológico de Braga, diz ter observado
várias explosões de gás incandescente que ocorreram,
com intervalos regulares, no planeta Marte. O espectroscópio
indica que o gás é hidrogénio e se move em direcção
à Terra com tremenda velocidade. O professor Dr. Manuel Franco,
do Observatório Astronómico de Cascais, confirma a observação
do Dr. Jorge da Fonseca, e descreve o fenómeno como "um
jacto de chama azul disparado por uma arma". (Pausa)
Em continuação da nossa rubrica com Orquestras Ligeiras,
apresentamos a orquestra de Dick Jacobs em Peticots of Portugal.
Disco - Peticots
of Portugal.
António
Revez: E agora um trecho que nunca perde a popularidade: Oh main
papa!. Toca a orquestra de Harry James.
Disco - Oh Main
Papa!
António
Revez: Senhoras e senhores, depois da notícia que demos no
nosso boletim de há momentos, o Observatório Astronómico
de Cascais pediu aos grandes Observatórios do País que
se mantivessem em observação astronómica sobre
as perturbações do planeta Marte. Devido à natureza
invulgar do acontecimento, conseguimos uma entrevista com o notável
astrónomo professor Dr. Manuel Franco, que nos dará a
sua opinião sobre o caso. Dentro de momentos ligaremos para o
Observatório de Cascais. Entretanto continuamos a transmitir
a nossa rubrica de orquestras ligeiras.
Disco (cortado,
bruscamente, a pouco mais de meio)
António
Revez: Estamos prontos a ligar para o Observatório de Cascais
onde o nosso repórter Álvaro de Lemos entrevistará
o professor Franco, director daquele Observatório. Atenção
a Cascais.
Pequena "branca"
- Sala com eco - Ouve-se em fundo um tic-tac contínuo durante
toda a entrevista
Álvaro
de Lemos: Boa noite, caros ouvintes. Fala-vos Álvaro de Lemos,
que se encontra no Observatório Astronómico de Cascais.
Estou numa enorme sala semicircular muitíssimo escura e apenas
com uma fenda comprida no tecto.
Por essa abertura vejo uma poeira de estrelas que projecta uma espécie
de brilho frio sobre o mecanismo intrincado do imenso telescópio.
O tic-tac que ouvem é a vibração do mecanismo do
aparelho. O professor Franco está instalado numa pequena plataforma
a olhar pela luneta gigante. Tenho de pedir paciência a todos
os ouvintes por alguns atrasos que possam surgir durante a entrevista.
Além de examinar o céu, o professor Franco pode ser interrompido
a todo o momento a todo o momento pelo telefone ou por outras comunicações.
Durante este período encontra-se em contacto constante com os
centros astronómicos do mundo. Senhor professor, podemos começar?
Artur Mourato:
Quando quiser
Álvaro
de Lemos: Senhor professor: quer fazer o favor de dizer aos nossos
ouvintes o que é que vê, exactamente, quando observa o
planeta Marte com o seu telescópio?
Artur Mourato:
De momento nada de extraordinário.
Um disco vermelho a nadar num mar azul. Riscas a atravessar o disco.
Agora bastante distintas, porque Marte se encontra num ponto perto da
Terra.
Álvaro
de Lemos: Na sua opinião, senhor professor, o que são
essas riscas do planeta?
Artur Mourato:
Posso assegurar-lhe que não são canais, embora seja esta
a convicção popular dos que julgam Marte habitado. Do
ponto de vista científico, as riscas são simples resultado
de condições atmosféricas especiais do planeta.
Álvaro
de Lemos: Então está inteiramente convencido, como
cientista, de que a vida inteligente, como nós a conhecemos,
não existe em Marte?
Artur Mourato:
Diria que a probabilidade é de mil contra um.
Álvaro
de Lemos: Então como explica essas erupções
gasosas que agora têm ocorrido na superfície do planeta
com intervalos regulares?
Artur Mourato:
Não as explico. Pelo menos por enquanto...
Álvaro
de Lemos: Já agora, senhor professor, para elucidar os nossos
ouvintes: a que distância está Marte da Terra?
Artur Mourato:
Aproximadamente a 75 milhões de quilómetros.
Álvaro
de Lemos: Bom, já é uma distância considerável...
Um momento, senhores ouvintes. Acabam de entregar ao professor Dr. Manuel
Franco, um papel. Enquanto ele o lê, recordo que lhes falo do
Observatório Astronómico de Cascais, onde estamos a entrevistar
o célebre astrónomo professor Dr. Manuel Franco. Um momento,
por favor! O professor Franco passou-me o papel que acaba de receber.
Posso lê-lo aos ouvintes?
Artur Mourato:
Com certeza, senhor Álvaro de Lemos.
Álvaro
de Lemos: Senhoras e senhores, vou ler-lhes um telegrama endereçado
ao senhor professor Dr. Manuel Franco pelo Dr. César de Brito,
da Central Meteorológica de Lisboa: "20:45 horas TMG, Sismógrafo
registou choque de intensidade, quase de terramoto, dentro dum raio
de 20 quilómetros, com epicentro em Lisboa. Favor investigar."
(Pausa) Senhor professor, este acontecimento terá qualquer relação
com as perturbações observadas no planeta Marte?
Artur Mourato:
Não é natural. Trata-se, provavelmente de algum meteoro
de tamanho invulgar, cuja queda, nesta altura não passa duma
coincidência. No entanto, procederemos a pesquisas logo que a
luz do dia o permitia.
Álvaro
de Lemos: Muito obrigado, senhor professor!
Caros ouvintes, temos estado a falar-lhes do Observatório Astronómico
de Cascais, transmitindo uma entrevista especial com o professor Dr.
Manuel Franco, conhecido astrónomo e director deste importante
Observatório. Vamos ligar para os estúdios em Lisboa.
Atenção estúdios!
Pequena "branca"
- Gong
Álvaro
de Lemos: Estúdios em Lisboa da Rádio Renascença.
Senhoras e senhores ouvintes, eis o último boletim da Agência
Internacional Press: "O Professor António Luiz Marañon,
chefe do serviço meteorológico da Universidade Técnica
de Madrid, anunciou que observou três explosões no planeta
Marte, entre as 16h20 e as 20.30 horas, tempo médio de Greenwich".
Isto confirma os relatórios anteriores recebidos dos Observatórios
nacionais. (Pausa) Agora uma notícia especial, fornecida, telefonicamente,
pelo Observatório Meteorológico de Cascais. "ÀS
21.15 horas, um objecto enorme e em chamas, que se julga ser um meteoro,
caiu numa quintq nas vizinhanças de Carcavelos, a cerca de 18
quilómetros de Lisboa. O clarão no céu foi visto
numa extensão de vários quilómetros e o barulho
do choque foi ouvido em Cascais". (Pausa) Enviámos uma equipa
a Carcavelos e o nosso repórter Álvaro de Lemos, que também
seguiu para o local do embate com o professor Manuel Franco, do Observatório
de Cascais, dar-vos-á uma descrição, directa, assim
que lá chegar.
Separador
António
Revez: Atenção, estimados ouvintes! Já pedimos
uma linha telefónica para Carcavelos, para onde estamos tentando
ligar e onde, dentro de minutos, deve chegar o nosso repórter
Álvaro de Lemos. (Pausa) Entretanto vamos ler-vos uma notícia
acabada de chegar: "O astrónomo francês professor
René Rolland, secretário do Centro de Estudos Astronómicos
de Marselha que ontem chegou a Lisboa, ao ter conhecimento dos fenómenos
ocorridos em Marte e Registados nos nossos Observatórios, deu
uma entrevista à imprensa, declarando que, no passado dia 23,
foram registadas diversas pequenas explosões de gás no
planeta Marte, pelo Centro Astronómico de Marselha. Essas explosões
seriam na sua opinião, devidas provavelmente, a um aumento de
temperatura naquele planeta. As Observações feitas pelo
Centro de Estudos de Marselha foram pelo confirmadas pelo Observatório
de Paris.
Disco (piano
- 30 segundos)
António
Revez: Atenção, estimados ouvintes: vamos ligar para
Carcavelos. Atenção a Carcavelos!
Ruídos
de multidão - Sirenas de bombeiros - ruídos vários
ao ar livre
Álvaro
de Lemos: Senhoras e senhores, prezados ouvintes, Álvaro
de Lemos, agora da Quinta das Conchas, em Carcavelos. O professor Franco
e eu fizemos a distância de Cascais até aqui em 7 minutos.
Bem eu, sinceramente, nem sei por onde principiar para vos descrever
a estranha cena que tenho diante dos olhos, e que mais parece arrancada
a um conto das Mil e Uma Noites!... Acabo de chegar e ainda nem tive
tempo de olhar em volta... Parece-me que é aquilo! Lá
está... a coisa, ali, diante de mim, meio enterrada num grande
buraco. Deve ter batido com uma força tremenda! O chão
coberto de bocados de madeira de uma árvore que se destruiu ao
cair. O que eu posso ver do objecto não se parece com um meteoro
ou, pelo menos com a descrição de meteoros que me tem
sido feita. Parece mais um enorme cilindro. Tem um diâmetro de...
quanto diria senhor professor?
Artur Mourato:
(Afastado):Uns vinte e tal metros.
Álvaro
de Lemos: Sim, uns vinte e poucos metros, de facto. O metal da superfície
é... bem... eu nunca vi nada de semelhante. Tem uma cor branco-amarelada.
Alguns espectadores mais curiosos a aproximar-se do objecto, apesar
dos esforços da GNR para os manter afastados. Estão a
tapar-me a vista. Cheguem-se para o lado por favor! (Pausa) Enquanto
dois soldados e um cabo da GNR afastam a multidão, temos aqui
o senhor Simões... o senhor Jacinto Simões, proprietário
da quinta. Pode ser que ele tenha alguns factos interessantes a acrescentar.
Senhor Simões, quer fazer o favor de contar aos nossos ouvintes
tudo do que se lembrar a respeito desse estranho visitante que lhe caiu
na propriedade? Aproxime-se mais, faça favor. Senhoras e senhores,
fala o sr. Jacinto Simões.
M. Calado: (Afastado):
Eu estava a ouvir telefonia...
Álvaro
de Lemos: Aproxime-se um pouco e fale mais alto, por favor!
M. Calado:
Como?
Álvaro
de Lemos: Mais perto e mais alto por favor!
M. Calado:
Ah! Pois eu estava a ouvir a telefonia e quase a adormecer. O tal professor
estava a falar de Marte e eu estava meio a dormir e meio...
Álvaro
de Lemos: Sim, Sim senhor Simões. E que aconteceu então?
M. Calado:
Como eu ia dizendo, estava a ouvir telefonia, quase a adormecer...
Álvaro
de Lemos: Sim, sim, senhor Simões. E foi então que
viu qualquer coisa?
M. Calado:
Não foi logo. Primeiro ouvi uma coisa.
Álvaro
de Lemos: E que foi que ouviu?
M. Calado:
Uma espécie de assobio. Assim: sssssssss, como um foguete.
Álvaro
de Lemos: E depois?
M. Calado:
Detei a cabeça fora da janela e iria jurar que estava a dormir
ou a sonhar!
Álvaro
de Lemos: Sim?
M. Calado:
Poi. Vi uma espécie de rasto esverdeado e depois, zás!
Uma coisa a bater no chão com toda a força. Até
me deseqilibrei.
Álvaro
de Lemos: Assustou-se, senhor Simões?
M. Calado:
Bom... não... não sei bem. Parece-me que fiquei um bocado
atrapalhado, não é? O senhor está a perceber?
Álvaro
de Lemos: Sim senhor. Muito obrigado, senhor Simões.
M. Calado:
Quer que eu diga mais alguma coisa?
Álvaro
de Lemos: Não, não, obrigado! Está bem assim.
Estimados ouvintes, acabam de ouvir o senhor Jacinto Simões,
proprietário da Quinta das Conchas, onde caiu o objecto. (Pausa)
Gostava de poder descrever-vos a atmosfera, o cenário deste espectáculo
fantástico. Dezenas de automóveis páram num campo
atrás de nós. A GNR está a tentar interromper o
trânsito que liga à estrada marginal, mas não consegue
nada. Os automóveis continuam a chegar. Os faróis iluminam
a cratera onde se encontra o objecto. Chegam agora dois carros dos Bombeiros
Voluntários de Carcavelos, pois receia-se que o objecto, que
se encontra em brasa, possa provocar algum incêndio. Alguns espíritos
mais aventureiros aproximam-se da cratera. As silhuetas de várias
pessoas recortam-se no brilho do metal.
Um Zumbido leve
que permanece em fundo até ao ruído seguinte
Há um homem
que quer lá ir tocar. Está a discutir com um Guarda Republicano.
O guarda vence. Agora, caros ouvintes, há uma coisa a que não
me referi, com toda esta excitação, mas que cada vex mais
distinta. Talvez já a tenham ouvido. Escutem...
Longa Pausa -
O zumbido sobe um pouco de intensidade
Ouvem? É
um estranho som, um zumbido vindo de dentro do objecto. Vou aproximar-me
mais. Assim... (Pausa) Agora estou a menos de quinze metros. Ouvem?
O mesmo zumbido
sobe mais de intensidade
Álvaro
de Lemos: Professor Franco! Professor!
Artur Mourato:
Diga, por favor.
Álvaro
de Lemos: Poderá explicar-nos a razão daquele som
que vem de dentro do objecto?
Artur Mourato:
Não sei bem. Talvez o arrefecimento desigual da superficie.
Álvaro
de Lemos: Continua a penasr que se trata de um meteoro, senhor professor?
Artut Mourato:
Não sei o que hei-de pensar. A superfície é nitidamente
extra-terrena - não há nada semelhante na Terra. A fracção
dos meteoros com a atmosfera da Terra costuma esburacá-los. Este
é liso e, como vê, de forma cilíndrica.
Vozes a Cochicharem
- Ambiente de multidão - Ruídos diversos ao ar livre
Álvaro
de Lemos: O professor Franco afastou-se agora para cumprimentar
um indivíduo que acaba de chegar. Julgo que seja um colega do
professor...
Ouvem-se alguns
cochichos não identificáveis
Álvaro
de Lemos: Exactamente! É o doutor Carlos de Melo, da Central
Meteorológica de Lisboa. Senhor doutor Carlos de Melo! Senhor
doutor, por favor! Estamos a fazer uma reportagem directa do estranho
fenómeno que se está passando aqui, na Quinta das Conchas,
em Carcavelos.
Poderá dar-nos a sua opinião sobre o estranho objecto
que temos na nossa frente?
Matos Maia:
Por ora não posso dizer nada de concreto. Acabo de chegar e apenas
lhe sei dizer que nunca vi nada semelhante a isto.
Álvaro
de Lemos: E quanto a este estranho zumbido?
Matos Maia: Meu
caro, sei tanto quanto você!
Álvaro
de Lemos: Muito obrigado, doutor Melo. Senhores ouvintes, acabam
de ouvir algumas palavras do doutor Carlos de Melo, da Central Meteorológica
de Lisboa. (Breve Pausa) Encontram-se já na Quinta das Conchas
jornalistas e repórteres, que disparam as suas máquinas
fotográficas sobre o estranho objecto. Chegou, agora, também,
uma equipa da televisão. A curiosidade e a emoção
de centenas de pessoas que se encontram é indescritível.
Cada vez chega mais gente.
Aumenta o clamor
de vozes - Grande burburinho
Álvaro
de Lemos: Esperem! Está acontecer qualquer coisa. Estimados
ouvintes, isto é fantástico! O topo do objecto está-se
a levantar! A tampa está a desenroscar-se! Deve ser oco!...
De súbito
o ruído de uma enorme peça de metal a cair
Álvaro
de Lemos: Caros ouvintes, isto é a mais assustadora a que
eu assisti na minha vida... Esperem! Está alguém a sair
do tubo! Alguém ou alguma coisa. Daqui vejo dois círculos
a espreitarem daquele buraco negro. Parecem... olhos. Pode ser uma cara.
Podia ser...
Gritos de horro
da multidão - berros diversos
Álvaro
de Lemos: Santo Deus! Está qualquer coisa a sair da sombra
como uma serpente cinzenta... E, agora, outra... e outra. Parecem tentáculos...
Já lhe vejo o corpo. É enorme e brilha como coiro molhado.
Mas a cara!? É indescritível! É com custo que consigo
continuar a olhá-la... Tem olhos negros que brilham como os de
uma serpente. A boca é em V e a saliva cai-lhe dos lábios
sem orla, que parecem tremer e pulsar. O monstro, ou lá o que
é, mal pode mover-se. Parece carregado por... pela gravidade,
talvez. A criatura está a erguer-se. A multidão recua.
Já viram o bastante. Isto é uma experiência extraordinária!
Não encontro palavras... Estou levando o microfone comigo enquanto
vos falo. Tenho de interromper a descrição até
encontrar um sitio melhor. Entretanto, não desliguem os vossos
receptores!
Pequena "Branca"
António
Revez: Estúdios da Rádio Renascença.
Disco (piano
20 segundos)
António
Revez: Vamos ligar novamente, a Carcavelos, para o nosso repórter
Álvaro de Lemos. Atenção a Carcavelos!
Pequena "branca"
- Ruído de multidão - Sirenes - Claxons diversos - Ruídos
ao ar livre
Álvaro
de Lemos: Caros Ouvintes, cá estou, atrás de um muro
de pedra que circunda a Quinta das Conchas do senhor Simões.
Daqui vejo toda a cena. Dar-vos-ei todos os pormenores enquanto puder
falar. Chegaram mais praças da GNR. Estão a formar um
cordão de uns trinta homens em frente da cratera. Agora já
não é preciso empurrar a multidão para trás.
Já ninguém quer aproximar-se. Um capitão da GNR
conversa com alguém.
Daqui não vejo quem seja. Ah, sim, creio que é o professor
Franco. É exactamente. Agora separam-se. O professor afastou-se
para um lado, estudando o objecto, enquanto um cabo e duas praças
da GNR avançam com qualquer coisa na mão. Já vejo
o que é. É um lenço branco amarrado a uma vara
- uma bandeira de paz! Se é que aquelas criaturas sabem o que
isto quer dizer - isto ou qualquer outra coisa...
Esperem! Está a acontecer qualquer coisa!!!
Um Silvo seguido
de um zumbido que aumenta de intensidade - permanecem em segundo plano
todos os ruídos anteriores
Álvaro
de Lemos: Uma forma corcovada está a sair da cratera. Vejo
um raiozinho de luz a dar num espelho. Que é aquilo??? Saltou
um jacto de chamas de um espelho e vai direito aos homens que avançam.
Dá-lhes em cheio! Santo Deus!, Incendiaram-se!!!
Gritos Vários
e muitos guinchos de medo
Álvaro
de Lemos: Agora o campo está todo em chamas!
Explosões
- Ruído de Materiais ardendo - Burburinho - Diversos ruídos
ao ar livre - Multidão
Álvaro
de Lemos: O fogo alastrou-se ao pomar da Quinta, aos barracões
e aos depósitos de gasolina dos carros! Está a espalhar-se
por toda a parte. Vem para este lado. Está a uns quinze metros
à minha direita...
Estrondo de rebentamento
de microfone - Silêncio absoluto durante 10 segundos
António
Revez: Senhoras e senhores, devido a circunstâncias imprevistas,
somos forçados a interromper a transmissão que estávamos
fazendo, directamente, da Quinta das Conchas, em Carcavelos. Parece
haver qualquer dificuldade na emissão local. Voltaremos a ligar
assim que nos for possível. Entretanto vamos ler um boletim de
San Diego, Califórnia, Estados Unidos da América que acaba
de chegar: "O professor Carl Pierson, falando num jantar da Sociedade
Astronómica da Califórnia, emitiu a opinião de
que as explosões de Marte não passam, indubitavelmente,
de graves perturbações vulcânicas na superfície
do planeta".
Gong
Rádio Renascença,
emissora católica portuguesa. Continuamos a transmitir solos
de piano.
Disco - (solo
de piano)
António
Revez: Senhores ouvintes, acabam de nos entregar uma notícia
que veio de Carcavelos pelo telefone. Pelo menos quarenta pessoas, incluindo
seis guardas da GNR jazem mortas num campo, cerca da Quinta das Conchas.
Os corpos estão queimados e torcidos, de modo a tornar impossível
qualquer identificação. (Pausa) Atenção
a uma mensagem especial do coronel Brás da cunha, comandante-geral
da Defesa do Território.
Pequena pausa
Mário
de Castro: A pedido das autoridades de Cascais, as vilas de Carcavelos,
Oeiras, Santo Amaro e Parede estão sob a lei marcial. Ninguém
poderá entrar nesta área senãomunido de um passaporte
fornecido pelas autoridades civis ou militares. Quatro Companhias do
Batalhão Independente de Infantaria 22 avançam de Paço
de Arcos para Carcavelos e auxiliarão os civis. Muito obrigado!
Pequena Pausa
António
Revez: Acabam de ouvir o coronel Brás da Cunha, comandante-geral
da Defesa Nacional do Território. Entretanto chegam-nos mais
noticias da catástrofe de Carcavelos. As estranhas criaturas,
depois do seu assalto mortal, voltaram a esconder-se no tubo e não
tentaram deter os esforços dos bombeiros para irem buscar os
corpos e apagar o incêndio. Vários batalhões de
Bombeiros da Localidade e outros que, entretanto, chegaram de Oeiras,
Paço de Arcos e Cascais, estão a combater as chamas que
ameaçam todos os arredores. (Pausa ) Não conseguimos estabelecer
contacto com a nossa equipa em Carcavelos, mas esperamos poder ligar
o mais breve possível. Entretanto, vamos... um momento, por favor.
Cochichar
António
Revez: Senhoras e senhores, conseguimos, finalmente, estabelecer
comunicação com algumas testemunhas da tragédia.
O professor Franco, juntamente com os nossos enviados especiais José
Dias e José Manuel Pinto, companheiros de equipa do nosso repórter
Álvaro de Lemos, conseguiram isolar-se do local da tragédia
e encontram-se agora numa vivenda de Carcavelos, próximo da Quinta
das Conchas, onde o professor montou um posto de observação.
Como cientista, ele vai dar-nos a sua explicação da calamidade.
Vão ouvir a voz do professor Franco, transmitida directamente.
Atenção!
Pausa - Ruídos
diversos de ligação - Pequena "Branca"
Artur Mourato:
Sobre as criaturas do cilindro da Quinta das Conchas não vos
posso dar informação categórica, quanto à
sua origem, natureza ou intenção aqui na Terra. Dos seus
instrumentos destruidores, posso arriscar uma conjuntura. À falta
de melhor termo referir-me-ei à arma desconhecida como um raio
de calor. É mais do que evidente que as criaturas têm as
criaturas têm conhecimento científicos muito mais avançados
do que os nossos. Presumo que são capazes de gerar um calor intenso
numa câmara de incondutibilidade praticamente absoluta. Projectam
esse calor intenso num feixe paralelo contra qualquer objecto, por meio
de um espelho parabólico, de composição desconhecida,
tal como o espelho de um farol projecta um raio de luz. É esta,
suponho eu, a origem do raio de calor.
Atenuação
dos ruídos - pequena branca
ANTÓNIO REVEZ: Directamente de Carcavelos, transmitimos uma
opinião científica
do fenómeno pelo professor Dr. Manuel Franco.
GONG
Estimados ouvintes, vamos ler outro boletim de Carcavelos.
E uma notícia curta, informando que o corpo carbonizado de Álvaro
de Lemos,
o nosso malogrado repórter, foi identificado num hospital de
campanha improvisado em
Carcavelos pela Cruz Vermelha. Agora outro boletim de Lisboa: "A
Secretaria da Cruz Vermelha Nacional informa que seis unidades de emergência
da Cruz Vermelha foram
enviadas para o posto da D.N.T. estacionado em Oeiras, a cerca de dois
quilómetros
do local da tragédia" ( Pausa) Outro boletim de Carcavelos,
fornecido conjuntamente
pela GNR e Polícia locais: "Os incêndios na Quinta
das Conchas e arredores estão já dominados. Na cratera
está tudo quieto e da boca do cilindro não se nota sinal
de vida". (Pausa)
E agora, senhoras e senhores, uma declaração especial
do Dr. Pedro da Fonseca,
nosso sub-director, a cargo de quem estão estas emissões.
JOSÉ PINTO: Recebemos um pedido da D.N.T., de Oeiras, para
colocarmos à sua disposição
todas as nossas facilidades radiofónicas. Em vista da gravidade
da situação e convictos
de que a Rádio tem uma decisiva responsabilidade em servir o
interesse público, em todas
as ocasiões, pomos o nosso serviço à disposição
da D.N.T., de Oeiras.
Pequena pausa
ANTÓNIO
REVEZ: Vamos ligar, agora, para o Quartel General da D.N.T, instalado
nas
vizinhanças de Carca velos. Atenção a Carcavelos!
PEQUENA "BRANCA"
- VOZES - RUÍDOS AO AR LIVRE
E. CARVALHAIS:
Fala o capitão Agostinho Nunes, do Corpo de Voluntários
anexo à D.NiT,
agora em operações militares nos arredores de Carcavelos.
A situação provocada pela presença de indivíduos
de natureza não identificada, foi dominada completamente.
O objecto cilíndrico, que j az numa cratera que fica logo abaixo
da nossa posição, está rodeado, por todos os lados,
por oito destacamentos de infantaria, sem peças de grande calibre,
mas devidamente armados com espingardas e metralhadoras.
Todas as razões para alarme, se é que alguma vez existiram,
são agorainjustificadas.
As criaturas, sejam elas quais forem, nem se arriscam a deitar a cabeça
de fora. Daqui vejo distintamente o esconderijo delas, à luz
dos nossos projectores. Mesmo com os recursos que lhes atribuem, as
criaturas não poderão resistir a um fogo cerrado de metralhadora.
Seja como for, isto é, pêlos menos, um bom treino para
as tropas. Uma das Companhias está a estender-se pelo flanco
esquerdo. Uma avançada rápida sobrea cratera e o caso
fica arrumado.
(Pequena pausa) Vejo agora qualquer coisa em cima do cilindro. Não!
Não é nada!
Apenas uma sombra. As tropas estão agora à porta da Quinta
das Conchas. Mil e quinhentos homens, devidamente armados e equipados,
a cercarem um tubo de metal
velho!...
A PARTIR DESTE
MOMENTO E ATÉ FINAL DO RELATO COMEÇA AOUVIR-SE UM RUÍDO
ESTRANHO, ESPÉCIE DE ZUMBIDO, QUE VAI AUMENTANDO DE INTENSIDADE
Esperem! Afinal
NÃO É uma sombra! É qualquer coisa a mexer-se,
metal sólido, uma espécie de carapaça a sair do
cilindro! Está a... cada vez mais alto! está de pé
sobre umas andas! Ergue-se, realmente, em cima duma espécie de
estrutura metálica. Agora está mais alto do que as árvores
e os projectores dão-lhe em cheio! É incrível!
Fantás................
CORTE SÚBITO
DA TRANSMISSÃO - "BRANCA" DE 20 SEGUNDOS
ANTÓNIO
REVEZ: Por motiyos alheios à nossa vontade, foi interrompido
o contacto telefónico
que mantínhamos com a nossa equipa em Carcavelos. Houve qualquer
impedimento na transmissão local, cujas causas não nos
foi possível averiguar por enquanto.
Tentaremos entrar em contacto com a nossa equipa logo que nos seja possível.
GONG
Estúdios
de Lisboa da Rádio Renascença, emissora católica
portuguesa.
Disco - (marcha
militar: 30 segundos)
ANTÓNIO
REVEZ: A agência noticiosa International Press tem-nos fornecido
diversos boletins de vários países, assinalando a queda
de máquinas cilíndricas idênticas à que caiu
na Quinta das Conchas, em Carcavelos. Assim, em França, foram
assinaladas quedas desses engenhos em Marselha, Lyon e arredores de
Paris. Em Espanha, verificou-se, também, a descida de engenhos
idênticos em Valência, Málaga, Sevilha e em vários
pontos da província da Andaluzia. Em Inglaterra, verificou-se
a queda de
máquinas nas regiões de Cornwail, Sussex e Kent. O Dr.
James Hawkes, director -geral do Centro Astronómico e Meteorológico
de Londres, concedeu uma entrevista à imprensa, rádio
e televisão, sobre os estranhos fenómenos. É seu
parecer que o caso é bastante grave, opinando aquele ilustre
astrónomo que deve tratar-se de engenhos de guerra de outro planeta.
O caso toma proporções catastróficas em todo o
mundo. O nosso Departamento de Noticiários está coligindo
as mais diversas
informações que nos chegam a todo o momento. Dentro de
breves instantes voltaremos a dar mais notícias. Pedimos a todos
os nossos ouvintes que mantenham os seus receptores sintonizados na
nossa estação, tanto em ondas médias como em ondas
curtas.
Este grave problema é do maior interesse para todos nós.
Disco - (solo
de piano 40 segundos)
ANTÓNIO
REVEZ: Há pouco não demos uma informação
aos nossos ouvintes, por não termos assegurada a sua realização,
o que só agora sucedeu. Não se poupando a esforços
e despesas, e dada a gravidade das estranhas ocorrências que temos
vindo a relatar, a nossa Secção de Produção
conseguiu obter, dos Correios, uma linha telefónica directa com
Londres. Assim, vamos ligar, imediatamente, para a BCC de Londres. Atenção,
senhoras e senhores. Atenção à BCC de Londres.
Atenção, Londres!
PEQUENA "BRANCA"
- DIVERSOS RUÍDOS PARASITAS - DURANTE O RELATO OUVEM-SE DIVERSOS
RUÍDOS E A VOZ É ESCUTADA COM INTERFERÊNCIAS, ORA
BAIXANDO ORA SUBINDO DE NÍVEL
AUGUSTO XAVIER:
London cailing. London cailing. This is BCC speaking in direct transmission
with through the
brodcasting station Rádio Renascença. During the last
24hours, many strange incidents o f unknown and unidentified
origin have taken place m different paris o f Great Britam.
Strange cylindrical machines have fallen in different paris o f the
country spreading terror and desolation and causing
a great number
of deaths. According to official statistics, more than 5. OOOpersons
have succumbed, victims o f a strange and deathly smoke expelled by
these machines. The situation in the whole country is terribly serious
and the Government is elaborating a detailed program of defence, and
the áreas attacked by the strange enemies are being isolatedfrom
the territórios. Marital law was proclaimed in the country. Many
of these strange machines were noted in the differents paris of London.
The enemy hás practically conquered the regions o f the Essex
and Kent. On its way the enemy hás razed almost everything to
the ground including houses andfields and caused a considerable number
o f deaths. The general situation in England is one of authentic terror.
Many patheüc scenes were evidenced and numerous cases o f suicides
were recorded on account o f the fear which these machines have spread.
Here, portuguese listners, we end our news program. Finally, there is
nothing that we can do except follow the situation with the greatest
possible calme and place our entire trust in His Divine Mercy.
Let us place our faith in Goa. In Him lies our oníy possible
salvation. Have mercy on us. Good night ladies and gentiemen.
BCC cailingfrom London. Attention, Lisbon! Attention Rádio Renascença!
Attention Lisbon!
DIVERSOS RUÍDOS PARASITAS - 1NTERMITÊNC1AS - «BRANCA»
DE 5 SEGUNDOS
ANTÓNIO REVEZ: Acabámos de transmitir um noticiário
directo da BCC de Londres. Dadas as más condições
de captação e para completo esclarecimento dos nossos
ouvintes, passamos a traduzir esse noticiário. \cf1 Pausa) «A
BCC falavos em transmissão directa telefónica com Lisboa,
por intermédio dos emissores da Rádio Renascença.
Nas últimas
24 horas, têm ocorrido diversos incidentes de origem não
identificada, em vários pontos da Grã-Bretanha. Esquisitas
máquinas cilíndricas têm caído nos mais variados
pontos do nosso país, espalhando a morte, desolação
e terror. Segundo estatísticas oficiais, já morreram cerca
de 5.000 pessoas, vitimadas por um estranho e mortífero fumo
negro que expelem. A situação em todo o país é
bastante grave e o Governo está elaborando um pormenorizado programa
de defesa, e as áreas atacadas pêlos estranhos inimigos
estão sendo isoladas do restante território. Foi decretada
a lei marcial em todo o país. Foi assinalado ,o avanço
de diversas máquinas sobre Londres e o inimigo tem, praticamente,
conquistadas as
regiões de Essex e Kent. À sua passagem, as casas, pessoas
e campos vão sendo dizimados. A situação geral
em Inglaterra é de autêntico terror. Têm-se registado
as mais variadas cenas patéticas, e já há alguns
casos de suicídio, por parte de pessoas apossadas de verdadeiro
pavor.
(Pequena
pausa)
Terminam aqui, ouvintes portugueses, as nossas notícias. Resta-nos,
em última instância, aguardar os acontecimentos com a maior
calma possível e confiarmos, inteiramente, na misericórdia
divina. Tenhamos fé em Deus!
GONG
De Lisboa transmite
a Rádio Renascença, trabalhando com todos os seus emissores:
estações de Lisboa e Porto em ondas médias e a
estação de ondas curtas CSB52 na banda dos 48 metros.
Disco - (solo
de piano 40 segundos)
ANTÓNIO
REVEZ: Senhoras e senhores, estimados ouvintes, temos uma grave
notícia a dar-vos.
Pausa)
Por muito incrível que pareça, tanto a observação
científica como os nossos próprios olhos, levam à
inevitável conclusão de que os estranhos seres que aterraram
hoje à noite em Carcavelos, são a vanguarda de um exército
invasor do planeta Marte. A batalha que teve lugar hoje, naquela localidade,
acabou por uma das derrotas mais espantosas sofridas por um exército
nos tempos modernos. Dois mil homens, armados de espingardas e metralhadoras,
contra uma única máquina dos invasores vindos de Marte.
Cinquenta sobreviventes que se saiba. O resto espalhado no campo de
batalha, desde Carcavelos a Oeiras, esmagados e espezinhados pêlos
pés metálicos do monstro, ou carbonizados pelo seu raio
de calor. O monstro domina agora a zona entre Carcavelos e Caxias. Algumas
linhas de comunicação foram cortadas, estando inteiramente
paralisados os comboios da linha de Cascais. As estradas, desde Cascais
à Cruz Quebrada, estão apinhadas de uma multidão
histérica. As reservas de Polícia e da GNR são
incapazes de controlar essa fuga desordenada. Calcula-se que, dentro
em pouco, os fugitivos devam quase duplicar a população
da capital. A esta hora a lei marcial foi decretada em toda a região
costeira até Cascais.
Disco - (solo
de piano 15 segundos)
ANTÓNIO
REVEZ: Atenção, estimados ouvintes. Vamos ligar para
o Ministério para uma transmissão especial. Vai falar
o secretário das Relações Interiores.
RUÍDOS
DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA» - SALA
COM ECO
GOMES ALMEIDA:
Cidadãos da Nação! Não tentarei esconder
a gravidade da situação em que se encontra o país,
nem o interesse do Governo em proteger as vidas e propriedades do seu
povo. No entanto quero marcar bem no vosso espírito de todos
vós, cidadãos particulares ou oficiais públicos
a necessidade premente de acção calma e efectiva. Afortunadamente,
este inimigo formidável está confinado ainda numa área
comparativamente pequena, e podemos ter fé de que as forças
militares lá o conservarão. Entretanto, confiando em Deus,
cada um de nós deve continuar a cumprir os seus deveres, de maneira
a enfrentar este adversário destruidor, como uma Nação
unida, corajosa, consagrada à conservação da supremacia
humana na Terra! Muito obrigado pela vossa atenção!
RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA»
ANTÓNIO REVEZ: Acabam de ouvir o secretário das Relações
Interiores, numa mensagem dirigida ao povo da Nação. (Pausa)
Amontoam-se no nosso estúdio tantos boletins noticiosos que é
impossível lê-los todos. Receberam-se telegramas de corpos
científicos franceses, ingleses e italianos a oferecerem assistência.
Os astrónomos comunicam que continuam a dar-se explosões,
a intervalos regulares, no planeta Marte. A maioria é de opinião
que o inimigo receberá reforços de outras máquinas.
(Pausa) Fizeram-se tentativas para localizar o professor Franco
e os restantes componentes da nossa equipa enviada a Carcavelos.
Receia-se que tenham morrido na recente batalha que se travou na região.
Aviões de reconhecimento avistaram três máquinas
marcianas, visíveis acima da copa das árvores, caminhando
para o Norte, com a população a fugir-lhes.
Não se servem do raio de calor, e embora avancem com pouca velocidade,
escolhem, cuidadosamente, o caminho.
Parecem esforçar-se, conscientemente, para evitar a destruição
de cidades e campos, mas param para arrancar cabos eléctricos,
pontes e linhas de caminho-de-ferro. O objectivo dos invasores parece
ser esmagar toda a resistência, paralisar as comunicações
e desorganizar a sociedade humana. Notícias do Porto informam
que grupos de camponeses deram com um cilindro enterrado num campo decultivo,
perto de Vila Nova de Gaia. Do Porto partiu arti
lharia para destruir a segunda unidade invasora, antes que o cilindro
se abra e seja montada a máquina de combate. Outro boletim, de
Torres Vedras: «Aviões de reconhecimento avistaram máquinas
inimigas, em número de três, aumentando de velocidade para
o Norte, destruindo casas e árvores com a pressa, evidente, de
se reunirem aos seus aliados que saíram de Carcavelos. As máquinas
foram também vistas por um grupo de pessoas a leste de Caldas
da Rainha». Agora uma informação dos Serviços
da Aeronáutica: «Uma esquadrilha de bombardeiros, munidos
de
explosivos pesados, segue para o Norte em perseguição
do inimigo. Aviões de reconhecimento actuam como guias. Não
perdem de vista o inimigo».
GONG
ANTÓNIO REVEZ: Senhores ouvintes, por intermédio dos
nossos estúdios do Porto, conseguimos estabelecer uma comunicação
especial com a linha avançada de Artilharia em Vila Nova de Gaia.
Vamos fazer uma transmissão directa na zona onde o inimigo avança.
Atenção Porto! Atenção Rádio Renascença!
RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA»
GONG
DANIEL GONÇALVES: Estúdios do Porto da Rádio
Renascença. Vamos ligar para as linhas avançadas de Artilharia
em Vila Nova de Gaia.
RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA»
- RUÍDOS VÁRIOS AO AR LIVRE
OSCAR RAMOS: Caros ouvintes: estamos junto de um Regimento de
Artilharia em Vila No vá de Gaia. Vai travar-se com bate com
as máquinas inimigas. Atenção! Vai principiar uma
das mais estranhas batalhas de todos os tempos!
JOAQUIM PEDRO: Alça 32 metros!
ARTUR MOURATO: 32 metros.
JOAQUIM PEDRO: Direcção 39 graus!
ARTUR MOURATO: 39 graus.
JOAQUIM PEDRO: Fogo!
REBENTAMENTO DE OBUSES - EXPLOSÕES VÁRIAS - PAUSA
COELHO DA SILVA: Em cheio, meu tenente! Acertámos no tripé
de um deles. Pararam! Os outros estão a ver se o consertam.
JOAQUIM PEDRO: Depressa! Alça 30 metros!
ARTUR MOURATO: 30 metros.
JOAQUIM PEDRO: Direcção 27 graus!
ARTUR MOURATO: 27 graus.
JOAQUIM PEDRO: Fogo!
REBENTAMENTO DE OBUSES - EXPLOSÕES VÁRIAS - PAUSA
COELHO DA SILVA: Não posso ver a explosão, meu
tenente!
Eles estão a lançar fumo!
JOAQUIM PEDRO: O quê?
COELHO DA SILVA: Um fumo negro, meu tenente! Vem para este lado.
Junto ao chão. Vem para aqui!
JOAQUIM PEDRO: Ponham as máscaras antigas. (Pausa)
Prepara-te para disparar! Alça 24 metros!
ARTUR MOURATO: 24 metros.
JOAQUIM PEDRO: Direcção 29 graus!
ARTUR MOURATO: 29 graus.
JOAQUIM PEDRO: Fogo!
EXPLOSÕES VARIAS - REBENTAMENTOS DIVERSOS - PAUSA
COELHO DA SILVA: Continuo a não ver nada, meu tenente!
O fumo está mais perto!
JOAQUIM PEDRO: Alça 23 metros! (Tosse)
ARTUR MOURATO: 23 metros. (Tosse)
JOAQUIM PEDRO: Direcção 22 graus! (Tosse)
ARTUR MOURATO: 22 graus. (Tosse)
SÚBITO SILÊNCIO DURANTE 10 SEGUNDOS
DANIEL GONÇALVES: Por motivos inteiramente desconhecidos
e alheios à nossa vontade, foi interrompida a linha de comunicação
que mantínhamos com o grupo de Artilharia pesada em Vila Nova
de Gaia. Vamos ligar para os estúdios de Lisboa. Atenção
Lisboa!
RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO - PEQUENA «BRANCA»
- GONG
ANTÓNIO REVEZ: Aqui Lisboa, transmite Rádio Renascença,
emissora católica portuguesa. (Pausa) Por especial
deferência dos Serviços de Transmissão e Escuta
da Aeronáutica Nacional, vamos ligar para bordo de um bombardeiro
da esquadrilha que sobrevoa o inimigo.
Atenção!
RUÍDOS DIVERSOS DE LIGAÇÃO -.PEQUENA «BRANCA»
- A VOZ OUVE-SE SEMPRE ATRAVÉS DO MICROFONE DE MÁSCARA
- SEMPRE EM
FUNDO, RUÍDO DE MOTORES DE AVIÕES
CARLOS PINTO: Fala bombardeiro V-8-43, da Base Aérea n.°
4, de Cascais, tenente Vasco de Sousa, comandando 8 bombardeiros. Relatório
ao comandante Cerqueira da Base Aérea de Cascais. Relatório
ao comandante Cerqueira, Base Aérea de Cascais. À vista
as máquinas de tripés do inimigo.
Reforçadas com três máquinas do cilindro de Vila
Nova de Gaia. Seis ao todo. Uma delas parcialmente mutilada.
Provavelmente atingida por uma granada de artilharia. A artilharia parece
ter-se calado. Junto à terra vê-se um espesso nevoeiro
negro, de densidade extrema e natureza desconhecida. Não há
sinais do raio de calor. O inimigo agora voltou para o Sul. Uma máquina
estacou. O objectivo evidente é a cidade de Lisboa. Estão
a deitar abaixo um poste de alta tensão. As máquinas estão
agora juntas, e nós preparados para o que vier.
Descrevemos círculos, prontos para atacar. Mais uns metros e
estaremos sobre a primeira. Oitocentos metros...
Seiscentos... Quinhentos... Duzentos... Lá vão elas! Levantam
um braço gigante! Um clarão verde! Estão a regar-nos
com chamas! Seiscentos metros de altitude...
COMEÇA O RUÍDO DE MOTOR DE AVIÃO COM FALHANÇOS
INTERMITENTES
Os motores estão a parar! Já não podemos largar
as bombas. Só há uma coisa a fazer: atirarmo-nos para
cima delas com avião e tudo. Picamos sobre o primeiro!
CESSAM COMPLETAMENTE OS RUÍDOS DOS MOTORES
Agora os motores pararam! Quinhen...
CESSAM TODOS OS RUÍDOS - PEQUENA «BRANCA» - AS
CONVERSAÇÕES DOS TELEGRAFISTAS SÃO OUVIDAS COM
LIGEIRO ECO
E. CARVALHAIS: Aqui Base Aérea de Cascais chamando a Base
de Gaia. Fala Cascais chamando Gaia. Transmita, por favor. Transmita,
por favor.
MATOS MAIA: Fala 8KR Base Aérea de Gaia. Pala Base Aérea
de Gaia. Oito bombardeiros travaram combate com as máquinas inimigas.
Motores inutilizados por raio de calor. Caíram todos. Uma máquina
destruída. O fumo negro e venenoso espalha-se por toda a parte.
As máscaras antigas são inúteis.
A população deve procurar os espaços abertos e
evitar as áreas congestionadas. O fumo espalha-se por toda a
parte...
E. CARVALHAIS: RC2 chama 8KR. RC2 chama 8 KR. ( Pausa)
Diga se me ouve em boas condições. RC2 chama 8 KR! Recebe
bem? Que aconteceu? 8 KR que aconteceu?
Transmita. Passo à escuta. (Pausa) 8 KR transmita! Atenção
8 KR!
«BRANCA» DE 5 SEGUNDOS - SINOS TOCANDO, EM FUNDO - AMBIENTE
DE RUA - RUÍDOS E SONS DIVERSOS DE GRANDE MULTIDÃO
JOAQUIM PEDRO: Aqui o repórter de exteriores da Rádio
Renascença. Estou a falar do terraço do edifício
«Philips», próximo da Praça Marquês
de Pombal. Os sinos que ouvem tocam para avisar o povo que abandone
a cidade!
Os marcianos aproximam-se! Calcula-se que cerca de dois milhões
de pessoas se deslocaram para o Sul. Todas as comunicações
com o litoral foram interrompidas há dez minutos. Não
há mais defesa! O exército, a artilharia e a aviação,
tudo derrotado! Esta transmissão pode ser a última! Aqui
estaremos até ao fim, no cumprimento do nosso dever, sem saber
se teremos ouvintes a escutar-nos! Lá em baixo, nas ruas, passa
grande multidão cantando hinos religiosos.
QUASE EM FUNDO, MAS SOBRE TODOS OS OUTROS RUÍDOS, OUVEM-SE VOZES
CANTANDO UM HINO RELIGIOSO
No Tejo cruzam-se dezenas de embarcações, de toda a espécie,
transportando a população em fuga!
APITOS E SIRENES DE BARCOS, EM FUNDO
Nas ruas não se pode andar. A multidão faz mais barulho
do que na noite de Ano Novo. Um momento! Já se vê o inimigo!
Cinco grandes máquinas... Vejo-as daqui, passando o Tejo a vau,
como um homem a molhar os pés num regato!
Agora a primeira máquina chegou ao lado de cá do rio.
Está no Terreiro do Paço, parada, observando a cidade.
A sua cabeça de aço ultrapassa os edifícios dos
Ministérios! Está à espera das outras. Erguem-se
como uma linha de novas torres a sul da cidade! Levantaram, agora, os
braços de metal!
É o fim! Deitam fumo, um fumo negro que se espalha pela cidade.
A gente nas ruas jaó viu. Correm para o cais, milhares e milhares
a atirarem-se à água! O fumo atravessa, agora, a Avenida
da Liberdade e as ruas adjacentes!
Chegou ao Marquês de Pombal! Avenida Fontes Pereira de Melo. Entra
pelas ruas Bramcaamp e Joaquim António de Aguiar! Está
a uns cem metros! Continua subindo! Cinquenta metros! Vin...
«BRANCA» DE 15 SEGUNDOS
ANTÓNIO REVEZ: Senhores ouvintes, vamos transmitir uma
gravação feita pelo professor Dr. Manuel Franco, com um
relatório minucioso de todos os incidentes ocorridos, desde que
perdemos o contacto com este eminente astrónomo, após
a batalha travada em Carcavelos. Vamos ouvir o professor numa gravação
feita por ele mesmo. Das naturais deficiências técnicas
desta gravação, pedimos muita desculpa a todos os ouvintes.
PEQUENA "BRANCA" - DURANTE TODO O RELATO ALGUMAS INTERFERÊNCIAS
PARASITAS
ARTUR MOURATO: Ao relatar estas notas, estou obcecado pela ideia
de que possa ser eu o último homem vivo na Terra. Tenho estado
escondido nesta casa vazia de Oeiras - uma pequena ilha de claridade
isolada do resto do mundo por uma cortina de fumo negro. Tudo o que
aconteceu antes da chegada destas criaturas monstruosas ao nosso mundo,
parece fazer parte doutra vida - uma vida que não tem continuidade
com a actual existência furtiva do desgraçado solitário
que improvisa estas notas faladas numa pequena máquina de gravação,
de pilhas, deixada pêlos infelizes rapazes da Rádio Renascença.
Olho para as minhas mãos enegrecidas, para os sapatos rotos,
para a roupa rasgada e tento ligá-los com um professor, que vive
em Cascais, e que há pouco viu, no seu telescópio, um
clarão cor-de-laranja num planeta distante.
A minha mulher, os meus colegas, os livros, o Observatório, o...
o meu mundo - que é feito deles? Existiram alguma vez?
Serei eu Manuel Franco? Que dia é hoje? Existirão os dias
sem calendários? Passará o tempo, se já não
houver mãos humanas que dêem corda aos relógios?
Fazendo esta espécie de diário falado, digo a mim próprio
que estou a preservar a história humana em duas pequenas bobinas
de fita magnética. Mas, para falar, tenho de viver, e para viver
preciso de alimentar-me. Encontro pão bolorento na cozinha e
uma laranja que ainda se pode comer. Estou de vigia à janela.
De vez em quando vejo um marciano passar. O fumo ainda rodeia a casa
com o seu círculo mortal. Mas, por fim, oiço um silvo
e vejo, de repente, um marciano, na sua máquina, que varre o
ar com um jacto de vapor, como a dissipar o fumo.
Encolho-me a um canto quando as enormes pernas de metal quase roçam
pela casa. Exausto, pelo terror, adormeço.
(Pequena pausa) Quando acordei, a nuvem negra de gás levantara-se
e nos prados calcinados, a norte, parece que passou uma tempestade de
neve negra. Arrisco-me a sair de casa. Encontro uma estrada. Não
há trânsito. Aqui e ali, um carro virado, com a bagagem
entornada, um esqueleto negro. Sigo para o sul. Não sei porquê,
sinto-me mais seguro indo atrás destes monstros do que fugindo
deles. E vou sempre alerta. Se uma das máquinas deles aparecer
por cima das copas das árvores, estou pronto para me estender
de bruços no chão. Durante várias horas vagueio
numa direcção aproximada para sul, através de um
mundo destruído.
Encontro vacas mortas num campo. Mais longe as ruínas carbonizadas
de uma quinta. Cheguei a um local cujos contornos julguei reconhecer
vagamente, mas com os edifícios estranhamente nivelados, e anões,
como se um gigante lhes tivesse cortado as torres mais altas com um
gesto caprichoso da mão. Cheguei às portas da localidade.
Descobri que era Algés, não demolida, mas humilhada, por
não sei que capricho da avançada marciana. Pouco depois,
com a sensação de estar a ser vigiado, avistei qualquer
coisa agachada no vão de uma porta. Dei corda à máquina
de gravar e meti o microfone no cinto. Dei um passo na direcção
dele e criatura levantou-se. Era um homem. Um homem armado de uma faca
comprida!
A. BAETAS: Pare! Donde vem?
ARTUR MOURATO: Venho... de muitos sítios. Há pouco
tempo saí de Carcavelos.
A. BAETAS: Carcavelos, hem? Foi aí que isto começou,
não?
ARTUR MOURATO: Creio que sim.
A. BAETAS: Que mala é essa?
ARTUR MOURATO: Uma máquina de gravar.
A. BAETAS: Uma máquina de gravar... hum! (Ri) Aqui não
há que comer! Toda esta região é minha! Todo este
lado da vila até ao mar! Só há comida para um.
Para que lado vai?
ARTUR MOURATO: Não sei. Ando à procura de... de pessoas.
A. BAETAS (Nervoso): Que foi aquilo? Não ouviu uma coisa?
ARTUR MOURATO: É um pássaro. Um pássaro vivo!
A. BAETAS: Agora um tipo até já repara que os pássaros
têm sombra... Espere! Aqui estamos a descoberto. Vamos falar ali
para a porta.
PASSOS DE DOIS HOMENS SOBRE EMPEDRADO
ARTUR MOURATO: Tem visto marcianos?
A. BAETAS: Foram para Lisboa. À noite o céu enche-se
com os focos deles. Como se ainda lá vivessem pessoas... De dia
não se vêem as .máquinas. Ontem dois deles levaram
qualquer coisa grande do aeroporto. Creio que estão a aprender
a voar.
ARTUR MOURATO: Voar?
A. BAETAS: Sim, voar!
ARTUR MOURATO: Então é que a humanidade está
acabada! Só ficámos nós os dois.
A. BAETAS: Eles firmaram-se bem! Aquelas estrelas verdes com
certeza que continuam a cair todas as noites por aí. Só
perderam uma máquina. Estamos prontos! Derrotados!
ARTUR MOURATO: Donde era você? Está de farda...
A. BAETAS: O que resta de uma farda! Era da D.N.T., da 1ª.
Companhia. Qual história! Isto foi tanto uma guerra como há
guerras entre os homens e as formigas.
ARTUR MOURATO: E nós somos as formigas... comestíveis!
Já constatei isso. Que nos irão eles fazer?
A. BAETAS: Já pensei nisso tudo! Agora apanham-nos quando
precisam. O marciano anda uns quilómetros e encontra logo uma
multidão a fugir. Mas não hão-de fazer sempre assim...
Passarão a caçar-nos, sistematicamente, guardando os melhores
e armazenando-os em jaulas e gaiolas! Ainda nem sequer começaram...
ARTUR MOURATO: Não é possível!
A. BAETAS: Vai ver que é! O que aconteceu, até
agora, foi porque nós não tivemos o bom senso de ficar
quietos, e os maçámos com canhões e coisas dessas!
Perdemos a cabeça e fugimos. Ora em vez de andarmos às
cegas, dum lado para o outro, temos de nos adaptar às condições
de agora. Cidades, Nações, civilização,
progresso... ppfff!!!
ARTUR MOURATO: Mas se assim é não vale a pena viver!
A. BAETAS: Durante um milhão de anos ou coisa parecida,
deixará de haver concertos e jantares nos restaurantes... Se
é divertimento que quer... isso acabou-se!
ARTUR MOURATO: E que ficou então?
A. BAETAS: A vida! Eu quero viver! E você também.
Não nos deixaremos exterminar! E não tenciono ser apanhado,
engordado e criado como um porco. Isso não é para mim!
ARTUR MOURATO: Que vai fazer?
A. BAETAS: Vou continuar! Mesmo debaixo dos pés deles.
Tenho um plano... Como homens, estamos arrumados. Não sabemos
o bastante. Temos de aprender muito, antes de nos aventurarmos. E precisamos
de viver e continuar livres, enquanto aprendemos. Já planeei
tudo, como vê...
ARTUR MOURATO: E então?
A. BAETAS: Bem, nem todos nós fomos feitos para animais
selvagens, se é isso que teremos de ser. Foi para isso que eu
o vigiei a si. Todos esses empregadinhos de escritório que aqui
viviam, não podiam servir. Não têm fibra! Só
estavam habituados a ir para os escritórios todas as manhãs.
Vi centenas deles, correndo como doidos, para apanhar o comboio ou o
eléctrico da manhã, com medo de serem despedidos por chegarem
atrasados.
Voltando a correr à noite, com medo de chegarem tarde ao jantar.
Com seguro de vida e um pequeno pé-de-meia para o caso de surgir
uma doença. E aos domingos, preocupados com o futebol... com
tudo e com nada! Os marcianos vêm mesmo a calhar para esses tipos.-Gaiolas
espaçosas, boa comida, criação cuidada, nada de
preocupações... Depois de uma semana de fuga com o estômago
vazio, hão-de sentir-se felizes por serem apanhados!
ARTUR MOURATO: Você pensou em tudo, hem?
A. BAETAS: Se pensei! E há mais! Os marcianos hão-de
domesticar alguns e ensinar-lhes habilidades. E quem sabe?!
São capazes de se tornar sentimentais ao pensarem no bichinho
que cresceu e teve de ser abatido. E, provavelmente, ensinarão
alguns a caçar homens...
ARTUR MOURATO: Não!!! Isso é impossível!
Nenhum ser humano seria capaz de...
A. BAETAS (Interrompendo): ïsso é que é! Há
homens que até hão-de ter prazer nisso! Se algum deles
alguma vez vier atrás de mim ...
ARTUR MOURATO: E, entretanto, você, eu e outros como nós...
onde é que havemos de viver, enquanto os marcianos dominarem
a Terra?
A. BAETAS: Tenho tudo pensado! Viveremos debaixo da terra! Lembrei-me
dos subterrâneos e esgotos. Por baixo de Lisboa há quilómetros
de subterrâneos, ainda do tempo dos mouros, como deve saber. Quilómetros
deles! Os principais têm tamanho mais que suficiente para qualquer
pessoa.
E ainda há caves, criptas, as fossas do metropolitano. Já
está a ver, hem? E juntamos um grupo de homens valentes. Fora
com os palermas!
ARTUR MOURATO: E queria que eu fosse?
A. BAETAS: Dei-lhe uma oportunidade para isso, não dei?
ARTUR MOURATO: Está bem, está bem, Continue.
A. BAETAS: Teríamos de descobrir sítios seguros
para morarmos e arranjarmos todos os livros a que pudéssemos
deitar mão. Livros científicos, é bem de ver. É
aí que são precisos homens como o senhor. Rebuscaremos
os museus, poderemos, até, espiar os marcianos. Pode não
ser preciso muito para que... Ora calcule isto... Quatro ou cinco daquelas
máquinas de combate, desatam de repente a andar - com raios de
calor para a direita e para a esquerda e sem um único marciano
lá dentro!
Nem um só! Homens! Homens que aprenderam a manejá-las.
Pode acontecer ainda no nosso tempo. Caramba! Imagine ter uma daquelas
coisinhas na mão, com raio de calor e tudo!
Atacaríamos os marcianos, atacaríamos os homens, dominaríamos
o mundo!!!
ARTUR MOURATO: É, então, esse o seu plano?
A. BAETAS: Eu, o senhor e meia dúzia de outros teríamos
o mundo a nossos pés!
PASSOS DE HOMEM AFASTANDO-SE SOBRE O EMPEDRADO
ARTUR MOURATO: Compreendo...
A. BAETAS: Espere! Que foi? Onde vai o senhor?
ARTUR MOURATO: (Afastado): Para um mundo diferente do seu! Adeus!
PAUSA
Depois de deixar o homem encaminhei-me para Lisboa ansioso por saber
o que acontecera à nossa cidade. Cheguei à Avenida 24
de Julho e lá estava o pó negro e vários corpos
e um cheiro mau e agoirento que saía das caves de algumas casas.
Vagueei pelas ruas. Parei, sozinho, no Terreiro do Paço vi um
cão magricela a descer a Rua Augusta, a correr com um bocado
de carne escura nos dentes e uma matilha de rafeiros famintos no encalço
dele. Passou-me de largo como se receasse encontrar em mim um novo concorrente
Subi a Rua do Ouro em direcção daquele estranho pó,
passando montras silenciosas que mostravam as suas mercadorias mortas
aos passeios vazios. Em cima do terraço do edifício dos
Correios avistei um bando de aves negras que descrevia círculos
no céu. Continuei para diante. De repente, vi a carapaça
duma máquina marciana, de pé, perto do Parque Mayer. Subi,
descuidadamente, a correr o resto da Avenida e entrei no Parque Eduardo
VII.
Subi a um pequeno montículo Daí vi dez daqueles enormes
gigantes de aço, de pé, numa fila silenciosa, de carapaças
vazias, com os braços metálicos pendurados ociosamente.
Tentei, em vão, descobrir os monstros que habitavam as máquinas.
De repente, os meus olhos foram atraídos pelo grande bando de
aves negras que pairava mesmo por cima de mim. Descreviam círculos
até ao chão e, ali, diante de mim, mudos e inteiriçados,
jaziam os marcianos com as aves famintas a picá-los e a rasgar-lhes
tiras de carne escura dos corpos mortos. (Pausa) Mais tarde, quando
os cadáveres foram examinados em laboratórios, descobriu-se
que tinham morrido vencidos pelas bactérias da doença
e da podridão, contra as quais os seus sistemas não estavam
preparados, abatidos, depois de terem falhado todas as defesas humanas,
pela coisa mais humilde desta terra. (Pausa)
Antes da chegada dos cilindros, havia uma convicção geral
de que em toda a vastidão do espaço não existia
vida senão na superfície mesquinha da nossa diminuta esfera.
Agora sabemos mais. É vaga e maravilhosa a visão que me
atravessa o espírito: a visão da vida a espalhar-se, lentamente,
deste pequeno viveiro do sistema solar, por toda a vastidão inanimada
do espaço sideral. Mas isso é um sonho remoto. Pode ser
que a destruição dos marcianos seja temporária.
A eles, talvez, e não a nós, está destinado o futuro!
"BRANCA" DE 3 SEGUNDOS- TODO O RELATO EM SALA COM ECO
ARTUR MOURATO: Parece-me estranho, agora, estar sentado na minha
calma sala de trabalho de Cascais, dizendo o último capítulo
da crónica começada numa casa abandonada de Oeiras. É
estranho ver as crianças a brincarem nas ruas e gente nova a
passear nos jardins, onde uma relva nova fecha as últimas cicatrizes
negras duma terra magoada. É estranho observar os curiosos a
entrarem num museu onde as peças duma máquina marciana
estão em exposição. E estranho recordar a primeira
vez que a vi, brilhante e recortada, dura e silenciosa, à luz
da aurora. E estranho pensar que tudo isto pode acontecer... pode acontecer
novamente!
Disco - (golpe musical forte)
MATOS MAIA:
Ouviram:
(Em eco) A INVASÃO DOS MARCIANOS
Disco (indicativo)
MATOS MAIA: Versão adaptada e actualizada por Matos Maia,
segundo o célebre romance de Herbert Wells, A Guerra dos Mundos.
Disco (indicativo - PP)
MATOS MAIA: Nesta emissão escutaram as vozes de Álvaro
de Lemos,António Revez.Armando Baetas,Artur Mourato,
Augusto Xavier, Carlos Pinto, Coelho da Silva, Daniel Gonçalves,
Eduardo Carvalhais, Gomes de Almeida, Joaquim Pedro, José Pinto,
Mariano Calado, Mário de Castro, Matos Maia e Oscar Ramos.
Disco (indicativo - PP)
MATOS MAIA: Sonorização e montagem de José
Manuel Pinto; efeitos especiais de João Rodrigues; gravação
fonoplástica de António Ricardo e José Manuel Pinto;
realização técnica de Moreno Pinto.
Disco (indicativo - PP)
MATOS MAIA: Uma realização radiofónica de Matos
Maia que Rádio Renascença transmitiu através de
todos os seus emissores: estações de Lisboa e Porto em
ondas médias e a estação de ondas curtas na banda
dos 48 metros, em serviço ultramarino.
Disco (indicativo - PP)
MATOS MAIA: Um programa radiofónico de ficção
científica:
(Em eco) A INVASÃO DOS MARCIANOS
Disco (indicativo-final) |